quarta-feira, 29 de março de 2017

Segredo



Converso com a árvore
e com a sombra da ave
a escorrer na relva..
Converso ainda
com a pilha de tijolos ao sol
e com o portão coberto de musgo

As histórias que contamos
uns aos outros
 permanecerão ignoradas .
enquanto houver alguém
 capaz de indagação.


(foto: Cleber Pacheco) .
.

terça-feira, 28 de março de 2017

Fruto-Furto


O fruto agoniza
no mar de mortos,
indícios
do que poderia ser
ou do que nunca será,
porta que abre
inutilmente.
Respiração
entre garras ofertando
o infértil,
vago estertor
de sementes em solo seco.
Furto.

(foto: Cleber Pacheco)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Resenha


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley


   Estes primeiros anos do século XXI são a própria distopia.Então este é o momento certo para ler todos os livros a respeito do tema que ainda não foram lidos. E é exatamente isso que estou fazendo. Para começar,nada melhor do que o famoso romance de Huxley Admirável Mundo Novo. 
   Por algum motivo o livro havia me escapado e quando encontrei um exemplar não tive dúvidas: comecei a lê-lo imediatamente.
   Num futuro baseado no prazer e na felicidade, os seres humanos são condicionados emocional e intelectualmente para que uma aparente harmonia evite conflitos,sofrimentos e o pensamento. Os seres humanos são fabricados em castas e nelas vivem sem questionar,sem raciocínios perigosos e indesejáveis ao Sistema. Para evitar o sofrimento existe o soma que deve ser ingerido diariamente. A literatura foi banida assim como a filosofia.  O único a ler Shakespeare é um selvagem, a versão de Huxley de Caliban,personagem de A Tempestade escrita por,evidentemente,Shakespeare. Até mesmo a ciência está sob controle para servir aos interesses do Sistema.
   Há apenas um arremedo de religião. Agora o mundo se divide em antes e depois de Ford e não mais antes e depois de Cristo.
   O mundo criado pelo autor se assemelha muito ao nosso. As maiorias preferem não pensar, adoram o prazer fácil,vivem de modo gregário e aceitam as coisas como elas lhes foram impostas,uma vez que são condicionadas terrivelmente. Ou seja,o livro não envelheceu: está mais atual do que nunca.
   Trata-se de um romance indispensável,crítico e contestador,um final impactante,muito distante,por exemplo,  dos filmes de ficção científica ruins que têm sido realizados nos últimos anos.
 
 
  

sábado, 25 de março de 2017

Tradução


   Arne Torneck é de Toronto,Canadá. Graduado com honras no Emily Carr College of Art and Design. Produziu transmissões de rádio de entrevistas na Toronto Subway line.  Atualmente escreve vinte e quatro horas por dia.
   Fiz traduções livres de alguns Haiku escritos por ele.


INSPIRADOR

Construindo ninhos de palavras
poetas fazem travessia
tragicamente tristes


SUSPENSÃO

Névoa de primavera perplexa
entre matar os croci *
ou semear as nuvens

(Croci- do latim crocum, crocus,croci:  estame amarelo de algumas flores).



PEIXE EM ÁGUA SECA

Boca garganta osso seco
luta para cair em fundo sono
peixe em água seca

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ilha


Não é utópica minha ilha,
apenas local de repouso,
fissura nas ondas estreitas
 que fecundam e cortam
águas.É,em verdade,
porção de terra anímica
e remota, justamente escolhida
pela falta de importância.
Perda de tempo avistá-la
ou vasculhar seus meandros,
é possível apenas acolhê-la
e permitir que aconteça,
 despida
de adornos e feita
para os expatriados do mundo.

(pintura: acrílico sobre tela de Cleber Pacheco)








quinta-feira, 23 de março de 2017

Azul


O céu suspira nuvens,
cumpre hiatos
entre os intervalos
da matéria,
mas nunca argumenta.

Pode-se pintar
sem azul? sem azul
não há pintura
nem evento,
tudo só seria um modo
de se desmentir por dentro.

Celeste é o anseio
que adormece
o mundo
em sua vivissecção
de osso e pedras.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 22 de março de 2017

História


A criança brinca
com o seixo,
o seixo contém
toda a história do mundo,
 a crua verve primitiva,
o alicerce dos impérios.
A criança brinca
e seu brincar contém
 a força motriz
do movimento ancestral,
todas as possibilidades do humano.
A criança e o seixo
convergem
como convergem vida e morte
no encontro de carne e nous 
no primeiro alento
e no instante do último sopro.

(foto: Cleber Pacheco)


segunda-feira, 20 de março de 2017

Novo Gênesis



Minhas mãos ainda sangram
enquanto vou modelando o barro,
na alma de Adão vou vertendo
vísceras de limo e lodo
de onde nascerá Caim.

(foto: Cleber Pacheco)




domingo, 19 de março de 2017

Avesso


Luz e sombra
no enigma dos avessos
atando imposturas
modeladas no impalpável,
intersecções desniveladas
nas aparas do oblíquo.
Fantasma sem lençol
vagando nas assombrações
do real, istmo
abraçando entornos
em catarses de vômito.
Jogo que imita
 versificação dos contornos
em sinapses sem fonemas,
construção de alicerces
nas aparas das fronteiras.
Tudo é eclipse
na exumação do vivo.

(foto: Cleber Pacheco)


sexta-feira, 17 de março de 2017

Mundo Novo


Vasculho
a paisagem buscando
árvores que não sejam mortas,
aves que não estejam feridas,
nuvens que não sejam negras.

Nada a declarar,
revelam
ramos secos,partidas pedras,
fungos carcomendo ocos.

Na desolação
do novo ritmo do mundo,
agoniza-se a cada instante,
cada instante é prenúncio
de miséria sem comiseração.

(foto: Cleber Pacheco)




quinta-feira, 16 de março de 2017

Vista



A janela redesenha o mundo
em sua translucidez
quase neutra, foco e decalque
de paisagens que se esvaem
em rupturas de pálpebras.
O mundo se desmente
a cada instante,revestido
com as cores do transitório.
Interior que se externa
na ambiguidade das composições.
Vidro a polir
as incongruências do existente.

(Foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 15 de março de 2017

RESENHA

INTERSECÇÕES (Em 4 tempos)
Por Krishnamurti Góes dos Anjos
TEMPO 1
A magia da linguagem e o prazer que ela nos oferece quando aliada a uma história muito bem urdida. Esta é a grata surpresa que Cleber Pacheco nos oferece em seu novo livro de ficção INTERSECÇÕES (Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2016. 94p.). Difícil a classificação quanto ao gênero adotado. Uma prosa poética que se poderia classificar como Novela? Fabula? Romance? ou Contos de fadas? Não deixa de ter um pouco de tudo, muito bem dosado, diga-se, para criar uma narrativa surpreendente, porque originalísssima. Difícil a classificação. E o leitor pego de surpresa ante a habilidade do autor em lidar com a linguagem também não se preocupa com isto. Para quê? Vejamos apenas trechos:
“Está escuro. Há uma bruma que aos poucos vai se dissolvendo”...
“Isto é o alvorecer. Há uma flor e uma rocha. Ambas em silêncio. Após a escuridão, surge um vulto logo à frente: é ele. Ele se sentou sobre a calçada de pedras tortas e amarelas. Dilataram-se suas pupilas e árvores latas torrões e cactos foram todos fluindo para dentro e ali morreram afogados.
Ela está aqui, ela veio. Com suas tripas, suas córneas, seus dentes. Procura a chave. Pode estar debaixo de algum tapete ou sobre o vidro. Sabe apenas que está nalgum canto escondida”.
TEMPO 2 As Sintaxes
Entretanto não nos enganemos, nada é gratuito na estrutura narrativa proposta, não há fabulações ingênuas. Os capítulos alternam-se em contar a história e o que vem logo após cada um deles leva sempre o sugestivo título de Sintaxe (parte da gramática que estuda as palavras enquanto elementos de uma frase, as suas relações de concordância, de subordinação e de ordem), mas também, como que um significado ampliado do que acabou de ser dito. E nessa ampliação novas propostas e novos artifícios linguísticos se não aprofundam significados, os contornam para direções insuspeitadas, significados que se bifurcam, se ramificam. Exatamente como a vida é, uma surpresa, uma mudança de rumo, uma novidade a cada momento...

TEMPO 3
Uma grande metáfora é proposta. A flor e a pedra (a compulsão e o tato), Margarida e Pedro, desde a infância, de descoberta em descoberta, descobrem-se um ao outro. Seres que se encontram....
“Agora ela diz seu nome. Margarida. Baixa um quase nada as pálpebras e vai levantando-as devagar”.... “Ele vai debulhando a rocha vai deixando pedregulho cascalho. Ele, o menino chamado Pedro”. A “Sintaxe’ deste capítulo é mais um exemplo da capacidade de síntese do autor ao versar, ou versejar o encontro:
“Gostaria de me tornar poliglota.
Preciso conhecer o abecedário.
Criei neologismos.
Inventarei a roda”.

TEMPO 4
“Ela vê o rapaz. Ele vê a moça. Olhos. Eles.
Olham-se e juntos vão subindo, lentamente, os degraus. Giram a maçaneta. Abrem a porta. Há uma certa penumbra. Mover-se de cortinas. Ranger de dobradiças. Em breve adentrarão o recinto. Descobrirão suas entranhas. A porta devagar se move. Eppur si muove”. (frase que segundo a tradição Galileu Galilei pronunciou depois de renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição). E finalmente os capítulos “Dragão e Obelisco”, e “Rosa e Diamante”, e.... só lendo!
Raríssimo momento de encantamento na literatura brasileira contemporânea, que anda eivada de dores, sofrimentos, desamor, violências e desencontros de toda sorte. Entretanto, há na existência, um valor máximo que é este. O ‘encontro’ com o outro. Pedras que se batem se atritam e se lapidam (eu disse se lapidam e não se estraçalham, fazer-se em pedaços com fúria, porque essa escolha, essa prerrogativa, é dada unicamente à espécie humana). Este nosso caminho, esta a nossa sina. A ideia fundamental, assim nos pareceu, que Cleber Pacheco nos lembra com suavidade e doçura. É assim e assim será sempre, nem que para isto tenhamos que lidar com flores azuis de plástico e potes de vidros com brilhos de diamante que as conterão. Com efeito, um livro que nos reconduz ao prazer da leitura num ritmo ágil, nos faz pensar, nos prende e nos faz ler vorazmente para chegar ao belíssimo desfecho. Realmente um achado! Merece nosso caloroso aplauso e leitura atenta!
Livro: Intersecções – Ficção, de Cleber Pacheco. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2016. 94p.
ISBN 978-85-5833-108-1





   

segunda-feira, 13 de março de 2017

Resenha



SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO de William Shakespeare

   Mais uma tradução em língua portuguesa de Sonho de Uma Noite de Verão de W. Shakespeare, desta vez realizada por  Beatriz Viégas-Faria e publicada pela L&PM.
   Trata-se de um trabalho que busca preservar o estilo do autor e,ao mesmo tempo,tornar a linguagem mais próxima de nosso tempo. Em geral, o resultado ficou interessante.
   Aqui o bardo inglês recorre,como em Hamlet, ao recurso de colocar uma peça representada dentro da peça. Além,é claro, de ser,neste caso,uma comédia a respeito das relações amorosas, o que elas têm de ilusório, de cômico e dramático.Ou melhor, o tema é abordado em suas diversas nuances, num jogo completo de luz e sombra,incluindo a fantasia,o ciúme,o desejo,etc.
   Com extrema habilidade e maestria Shakespeare aborda o relacionamento amoroso de modo amplo,mas sempre explorando a comicidade das situações, além de utilizar o poético com suas fadas e duendes que acabam por causar as confusões presentes no enredo e o aspecto onírico, realçando a delicadeza do tema.
   
   Os  amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes,fantasias tão imaginativas,que acabam por conceber  mais do que a fria razão pode  compreender. O lunático,o amante  e o poeta são compostos tão somente de imaginação.
   

domingo, 12 de março de 2017

Quietude


A cada dia
menos palavras,
menos escrita,
a cada instante
meno suspiros
ou pulsações.
Retirar-se
em sigilo
é uma arte
que nem só
ocultistas cultivam,
recolher-se
é algo
que também aprendi.
Em vez de idolatrar
exuberância
de flores,
aprecio a veneração
 à espontaneidade
do musgo
soletrando
a idoneidade da pedra.

(foto: Google imagens)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Brilho



Silenciei,um a um,
 todos os instrumentos.
Cortei as cordas
dos teclados,
apaguei as notas
da composição.

Nem ruído ou música,
apenas a insistente
voz do vazio
ecoando nas cavidades do nada.

Sei lustrar
os móveis muito bem.
O tampo do piano esmagando
as teclas
agora brilha no escuro.

)togo: Google imagens)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Outra Escrita


É hora de tirar os sapatos
e escrever poemas que ardem
na sola dos pés, queimam
peles,incendeiam a terra,
perfuram carnes e anunciam
lesões,fraturas ,internações
em manicômios.
É preciso dilacerar os pés,
sujá-los o mais que puder,
afundá-los nas catacumbas da terra
Basta de plantar pó e pedras
no deserto dos mortos

(imagem:  Google)

.


terça-feira, 7 de março de 2017

A Arte da Presença


O opaco encontra
o calro,
depois descentra
o
zero,

deslocamento
que declara
o espanto
da espera,

desencontro
em linha reta,
encanto
em linha torta,

novo foco chegando,
outro eco
partindo.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Resenha



A ABADIA DE  NORTHANGER

   A Abadia de Northager foi o primeiro romance escrito por Jane Austen. Trata-se de uma paródia dos romances góticos que estavam tão em voga em sua época,especialmente Os Mistérios de Udolpho, de Ann Radcliffe.
   O texto é bastante crítico e cômico e os personagens por certo diferem muito dos estereótipos aos quais o leitor estava então acostumado. A heroína, Catherine Morland, não é espetacularmente dotada de beleza, talento ou inteligência. Um tanto ingênua,mas sincera e sem malícia, anseia por viver uma aventura repleta de mistérios e perigos. Ao contrário disso, sua vida tem poucos acontecimentos e todos eles muito comuns: quando enfim sai  do meio rural , consegue fazer  alguns passeios,ir a bailes e visitar amigas. Nada que qualquer outra jovem de sua idade não estivesse habituada a realizar.
   A sra. Allen,com quem ela convive em Bath é totalmente desprovida de cérebro. Sua única preocupação é com os vestidos. Não tem nenhuma opinião própria. O sr. Thorpe, o primeiro a interessar-se por ela, é um gabola que vive contando vantagens a respeito de seus feitos imaginários.Não passa,no entanto,de um interesseiro. A sua amiga Isabella é totalmente dissimulada e hipócrita,incapaz de um gesto verdadeiro,além de leviana. A autora não é nem um pouco condescendente com a hipocrisia social que soube observar e retratar tão bem.
    O único acontecimento extraordinário é quando recebe o convite para ir passar uma temporada na Abadia de Northanger,com a srta. Tilney,uma amiga verdadeira e seu irmão,por quem Catherine nutre amor sincero.
    Ansiando por imitar o livro de Ann Radcliffe, a protagonista vê na Abadia a possibilidade de entrar em contato com um ambiente obscuro e misterioso. Suas fantasias levam-na a criar situações imaginárias que logo são desmentidas uma a uma implacavelmente. Com isso, acaba por efetuar um processo de amadurecimento até compreender que a vida tem suas próprias exigências e é importante estarmos atentos a elas.
   Uma leitura agradável e divertida, que torna possível compreendermos a evolução da escrita de Jane Austen,que,com humor mais sofisticado,nos legou entre outros livros, sua obra-prima Orgulho e Preconceito. 
 

 

sábado, 4 de março de 2017

FLUIDO


A água,quando flui,
ao sólido responde
e,excluindo-o,inclui
o sóbrio que o esconde.

Inundando a matéria
torna-se precisa,
recusando-se a ser séria
é que contabiliza.

A tudo invadindo
com zelosa sanha,
prefere,ao insípido,
cometer barganha.

Roubando o alheio,
revela sua astúcia,
dividindo,sem receio,
a menor minúcia.

(imagem: pintura de Tom Thomson)
[

sexta-feira, 3 de março de 2017

Geômetras



   Enquanto o xamã vai preparando a Roda da Medicina, o monge tibetano vai traçando a Mandala , o artista engendra a rosácea da catedral de Chartres e os Elohins desenham os círculos concêntricos do Cosmos.

(imagem: Google)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Resenha


SOBRE A LEITURA

    O prefácio escrito por Marcel Proust intitulado  Sobre a Leitura acabou por ganhar autonomia,ou seja, tornou-se uma publicação com vida própria. No Brasil foi publicado pela editora L&PM e contém ainda um depoimento de Céleste Albaret ,a governanta de Proust durante os seus últimos dez anos de vida.
    O autor inicia evocando as leituras de infância e no seu estilo meticuloso,vai ampliando o alcance do tema, abordando a questão da leitura como uma forma de amizade:

   Na leitura a amizade é subitamente devolvida à sua pureza original . 

   Além desta ideia central, o famoso escritor defende a leitura como um modo de nos retirar da inércia espiritual e auxiliar aqueles que,de outro modo,não conseguiriam encontrar nenhum estímulo para buscar,por si mesmos,a verdade, a vivência espiritual.

    Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas abrem no fundo de nós mesmos  a porta de moradas em que não conseguiríamos  penetrar,seu papel em nossa vida será salutar.

   Além disso, comenta a respeito dos intelectuais, dos clássicos e,até mesmo,dos perigos que a leitura pode representar.
   O depoimento de Céleste  vem a seguir e reaviva em nós a admiração por Proust,bem como nos oferece uma visão de como ele viveu em reclusão,sofrendo com as crises de asma, seus caprichos e sofrimentos diante da saúde frágil.
    A única coisa que lamentamos é o fato de o livro ser tão pequeno.Ficamos com vontade de saber maiores detalhes.Mas isso podemos encontrar em sua pródiga obra Em Busca do Tempo Perdido, que é um dos monumentos da Literatura Universal.
   
 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Genealogia


Toda ave existe
se reiterada a recusa,
sói ser extraída
de ancestral miséria.
Recuando à hora
em que foi recuada,
do que mais carece
toda ave evacua:
o seu próprio corpo
ao invés de espécie.
Toda ave busca
sua consistência
recuando à hora
de sua abstinência.
Fatalmente sabe
ser a sua rota,
sistemático insistir
daquilo que é remoto.
Só a ave sente
qual é o seu modo:
ser sua involução
fatal fardo.

(imagem: Google)


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Nova revista cultural


   A revista SCRIPSI é um projeto cultural Entre Portugal e Brasil. Literatura,arte e filosofia são a temática.
Neste primeiro número, há ensaios,traduções,contos,desenhos.
   Revista de alto nível que já começa com grande sucesso.
   Publico textos literários e artes plásticas. Também faço parte do Conselho Editorial.
   Pouco a pouco convidaremos autores e artistas para enviar seu material.
   Para acessar , ler e fazer subscrições,é só clicar o link abaixo:

   https://joom.ag/S88W

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Criptografia



Não leio jornais,
mas as folhas das árvores,
as areias do deserto,
o percurso da seiva e das dunas,
a corrosão das formas
destilando o ossário do vivo.
Leio,das aves,as vísceras,
a sua predisposição eólica,
a filigrana das plumas
na expansão do ignoto.
Releio os caracteres do mundo
em sua crosta mimética,
as funduras dos abismos,
a antiguidade das crateras
a escavar as veias do vivo
em ramificação e fluxo
a vislumbrar a transfusão do íntimo
ao calígrafo de tudo.

(imagem: Google)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Arte das Coisas

 Quando uma coisa provoca,
provoca sem ruído,
escava uma toca
e resolve o seu sentido
e então mais choca
por ter se convertido
em longo fio e roca
que anunciam um tecido
que revela como é oca
a veste com que é vestido.

Quando uma coisa revela
o seu modo combalido,
sem mais esta nem aquela
reconhece o seu sentido,
pinta uma aquarela
a partir do próprio olvido
e descobre como é bela
 a cor do desconhecido.

Quando uma coisa inaugura
o seu jeito repetido,
torna-se mais pura
para ter maior sonido,
convertendo a curvatura
em algo estendido,
preenchendo a partitura
com o ângulo perdido
em suave arquitetura
de som e de sentido. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Poema


A ARTE DE VIVER

Viver é arte
que aceita corte,
coar a parte
escoada da morte.

Viver é a arte
do reparo,
cicatriz da parte
justo no amaro.

Viver é a arte
de enganar o engodo,
desatar da parte
no todo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Nuvem


Suspensa no ar
mais que mera imagem
ou sopro de vertigem
mais que é ou possa estar
tudo nela irá verter
(aquilo que foi compondo
enquanto não era quando)
tudo que tem ou possa ter

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Resenha


    AS MEMÓRIAS DO LIVRO de Geraldine Brooks


   Publicado no Brasil pela Ediouro em 2008, As Memórias do Livro de Geraldine Brooks tem uma estrutura narrativa interessante. A personagem Hannah Heath,que é restauradora, é convidada a trabalhar num antigo manuscrito religioso judaico, uma Hagadá.  Esta se difere das outras obras do gênero por conter instigantes ilustrações, o que é incomum. Hannah descobre alguns indícios nas páginas do manuscrito e começa a investigar cada uma delas. À medida que estes surgem,há uma capítulo dedicado a cada um deles,  recuando cada vez mais no tempo,contando os episódios que envolveram as personagens que tiveram contato com ele.
     Inspirada em fatos reais e fazendo ficção, Geraldine vai construindo um romance que vai se tornando cada vez mais interessante à medida que avança. Ela consegue retratar bem os períodos históricos e a narrativa tem suspense,prendendo a atenção do leitor.
   Até o final a trajetória da Hagadá tem muitas reviravoltas, trazendo à tona uma reflexão a respeito dos livros antigos,da cultura,dos costumes, dos preconceitos.
   Uma ideia bastante original, apesar de não ser uma obra-prima.

 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Limite


Além da treva
há certa claridade,
se aurora não é,
também não é tarde.

Além do deserto
brota uma erva,
se o estéril não acaba,
também não conserva.

Além do desencanto
resiste um fardo,
se morte não é,
também não é parto.

(foto: Cleber Pacheco)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Enigmas


FOME


   Um homem caminhando num pomar.Encontra uma laranjeira e,nela,uma laranja.Sem casca.Colhe-a.Abre-a.A casca é por dentro.Come a laranja.Fica com a casca.Precisa comer a laranja.



 PRESENÇA

Terreno baldio.Cai uma bola.Entre o vazio do ar e do chão,opta por quedar-se,muda.Não alça aos céus.Não toca o chão.Para sobreviver,encarna  em seu corpo de esfera.Eis a sombra.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017


Não preciso que me digam
quantos dormem sob a terra,
fui eu que coloquei
moedas sobre seus olhos.

É inútil traduzirem
lamentos e litanias,
fui eu que escandi
a assimetria dos versos.

Tempo perdido invocar
aparições e avantesmas,
a vida só fossilizou
nas entranhas a ausência.

(foto: google imagens)



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Tradução


Madhumita Ghosh é poetisa e editora da Índia. Seus poemas têm sido amplamente publicados em e-books,revistas,jornais ao redor do mundo.
   Ela é autora de quatro livros de poesia : For All You Lovely People, Pebbles on the Shore, Flowing with the River e My Poetry My Voice, além do livro de crítica literária  William Blake: A Prophet for Mankind.
    Esta é minha tradução:

Sozinha,Sento-me

Em áspero pedregulho
Abandonado numa ilha,
Simples palmeira por companhia,
Sozinha na praia
De vasto mar a estender-se.

Dorme,tranquilo,o mar
Em envolvente nevoeiro coberto
A espalhar-se através do éter,
Mar e céu se fundem.

Um consistente vazio
Olha para além de mim
Tudo sabendo enquanto
reúnem-se tempestuosas nuvens no oeste.

É só
Breve espera
Dorida e paciente espera,
Tudo ficará bem outra vez,
Eu sei.

(foto: Google imagens)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Esquecimento


Esqueci os sons das palavras,
como consultar os dicionários,
os nomes das borboletas.

Hoje vigoram os ruídos,
 os mergulhos dos afogados,
a estridência dos espectros.

Será preciso reconstituir
a ingenuidade da ortografia,
os resquícios dos pergaminhos,
a criação do alfabeto.

Só então poderei nomear
as flores fecundadas no silêncio.

(imagem: Google)


 





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Mundos Paralelos


   Num dos mundos jogou xadrez e ganhou, no outro perdeu,num outro ainda,empatou,num deles a partida foi adiada, num outro bem diverso jogava xadrez consigo mesmo, num mundo remoto os indianos ainda inventavam o jogo de xadrez.
   No mundo além dos mundos, olhava para isso sabendo que tudo não passava de um grande jogo Cósmico.

(imagem: Google)
 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eco


Tudo está no lugar
de uma outra coisa.
Tudo substitui
uma coisa que não pode
ser substituída
e que nunca acontece.
Todo corpo é sombra
do que não tem corpo.
Todo pensamento é mímica
do que nasceu mudo.
O mundo é só uma esfinge
isenta de enigma.

(imagem: Google)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Dimensão


Os olhos do felino veem
as franjas do invisível,
mesmo quando sonham.
Ainda que indolentes,
os olhos do felino vasculham
desconfianças escavadas
na indocilidade do impalpável.
Ninguém pode adivinhar
o que jaz sob suas pálpebras,
o que fere a constituição das coisas,
o que reabilita a aspereza da carne,
mesmo a mais flácida.
Os olhos do felino convergem
para o astuto e doam córneas
ao inverossímil, não raro abrindo
portas hermeticamente  lacradas.
Os olhos do felino abençoam
a fina ossatura dos silêncios.

(foto: Cleber Pacheco)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Poemas breves



MUNDO

Há sempre alguém se apaixonando,
há sempre alguém morrendo,
há sempre uma unha encravada
nas mãos do poeta.

ENCONTRO

Desculpe-me pelo atraso.
É que morri às seis da tarde
e perdi o horário.

LER

Mundo impresso
no avesso
do esquecimento.

(pintura: Almeida Jr).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Nataraja


Meu corpo é a Arca de Noé;
Minha mente, a Arca da Aliança,
na coreografia de Shiva Nataraja,
dança que abarca
improváveis infinitos.

(imagem: Google)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vaticínio

Certas manhãs desperto
com o estalar da ratoeira.
Sei que naquele dia não será
necessário consultar
as vísceras das aves.

(imagem: Google)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tractatus Logico-Philosophicus


Ainda escreverei
o maior estudo
sobre Estética
de toda a história da humanidade:
colocarei uma pedra
sobre o solo
e dançarei em volta dela.

(foto: Cleber  Pacheco)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Expansão

Rompendo
invólucros
dissolvendo
 fronteiras
viver se amplia
a cada instante por não haver instante
crescer contínuo-descontínuo em vertente e fluxo
descoberta verve e chama a abrir-se em todos os possíveis da amplidão
na crescente abertura dos inúmeros universos múltiplas espirais de inenarráveis infinitos

(imagem: Google)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Resenha

O escritor Paulo Monteiro comenta meu livro INTERSECÇÕES:

A leitura e a releitura de INTERSECÇÕES, de Cleber Pacheco, me fizeram voltar a dois grandes mestres: Napoleão Mendes de Almeida e Celso Ferreira da Cunha. Ambos fundamentaram meus conhecimentos da Língua Portuguesa e da minha cosmovisão da Literatura. E Cleber é professor de Língua Portuguesa e de Literatura. Além mais, escreve poemas, romances e ensaios literários.
Apresentado como “romance”, INTERSECÇÕES é muito mais do que isso. É um híbrido de poema e prosa literária. Seus nove “capítulos” podem ser entendidos como três “cantos” de um poema. Os parágrafos têm um caráter de estrofes, separadas pelos dois espaços em branco empregados no sistema estrófico.
   Fernando Pessoa, poeta e prosador, useiro e vezeiro em comentar sua própria obra, ora empregando seu próprio nome, ora valendo-se dos heterônomos, via uma única diferença entre a literatura artística: a divisão em versos, no Poema, e a divisão em Parágrafos, na prosa. Cleber quebra com essa divisão, superando a ancestral prática do poema em prosa ou prosa poética, de acordo com o gosto de quem escreva sobre o tema.
   Intersecções é um termo matemático. Mais precisamente da Teoria dos Conjuntos. Três são as pessoas fundamentais do livro: “Ele”, “Ela” e “Eu”. Formam uma tríade indissociável. Sem essa associação não existe a obra literária.
   Ele, Pedro, é pedra, um apaixonado pelo trabalho artesanal. Faz o trabalho pesado da casa. Ela, Margarida, cultivadora de flores e apreciadora de belezas. Formam um verdadeiro par, uma “pereja”, no velho e bom espanhol. Eu, Eu é narrador, um sujeito quase oculto, semioculto. Narrador principal, é o “alter ego” do próprio Autor.
   Eu forma um espécie de triângulo amoroso com Ele e Ela. É um sujeito entre o esforço árduo de trabalhar a Língua, o Beneditino do parnasiano Bilac e Ela, que encerra toda a beleza e a sensibilidade da arte literária.  Nisso consistem as intersecções de INTERSECÇÕES, um livro que se pode ler tanto como poema como romance. Mas acima de tudo... um livro para ser lido.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Brainstorm


Cair de folhas sobre
minha cabeça
impregnando
sementes esquecidas,
escavando
o carvão da memória,
ressuscitando
esculturas de restos ,
sonhos erráticos bordando
teias,
criando,na concha,
um oceano,
seus dilúvios e arco-íris,
parturientes suando areia,
fertilizando a árvore dos alumbramentos.

(Imagem: Google)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Submundo,Mundo,Supramundo


Qual dos mundos
você adentrará
com passos pesados,
cautelosos?
Deixará vestígios,
rastros?
Buscará mapas astrológicos,
a pedra filosofal?
Até onde penetra
a tua coragem,
até onde alcançam
os teus sentidos?
Qual dos mundos
você visitará
em teu mergulho?

(imagem: Google)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Exsudação

Entre febres e hipotermia,
suor e tremor em fluxo,
  sincronia de opostos.

 Profundezas da epiderme,
nos abismos da horizontalidade,
a nudez do mergulho
 no espírito das vísceras.

Morte e vida em fundação
nas espirais dos organismos.
Vida e morte em fundição
de superfície e rizoma.

(imagem:Google)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Música


A tecla dita
o segredo do sonoro
em partículas que se desprendem
no aroma do sussurro.
Vida reescrita
nos dicionários do silêncio
revestido de epifanias.
Frase impudica
transbordando
em poros e insolências.
Maestria
do irrevelado
a vestir nudez
em formas.
Ênstase - extase.

(imagem: Google)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vigésima oitava carta de Schiller(da série de Cartas Sobre a Educação Estética da Humanidade) - Inacabada


   Se as alegrias dos sentidos podem apenasmente ser desfrutadas por nós enquanto indivíduos e as do conhecimento enquanto espécie e a beleza pode,enfim,unir os dois aspectos ao mesmo tempo,em que consiste a alegria proporcionada pelo belo?
   Permitireis que vos exponha um outro quesito antes de chegar a esta indagação e respondê-la.
   Se,talvez em hipótese muito remota,chegasse o dia em que o feio,o mórbido, o mau e o cruel,o ruim e o perverso,ou seja,tudo o que se opõe rigorosamente ao belo,se tornasse um valor  em si,o que seria da humanidade? Se o gênero humano se voltasse para a perversão,a crueldade e o ódio,possível seria criar uma autêntica obra de arte,possível seria a cultura,a civilização?Se a felicidade consiste no equilíbrio de todas as forças humanas,o que seria de todos nós se o mal prevalecesse ?
   É inconcebível a viabilidade de um estado desarmônico que se sustentasse por muito tempo e se nutrisse do caos e dele dependesse para massacrar o que existe de mais autêntico na humanidade.O resultado só poderia ser a extinção de tudo o que conhecemos e sentimos para o estabelecimento de uma nova ordem,para o Império Absolutista do Mal,levando-nos à total destruição,ao aniquilamento ao Nada.
   Assim sendo, retornemos à questão: em que consiste a alegria proporcionada pelo belo?
 
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Lição




Escreveu: Sob o sol inclemente foi pelo caminho que serpenteava até chegar a uma ladeira íngreme.
"Todas as ladeiras são íngremes", pensou.  
Escreveu: Sob o sol inclemente foi pelo caminho que serpenteava até chegar a singular ladeira. 
"Todos escrevem que o caminho ou a estrada serpenteava".
Escreveu:
Sob o sol inclemente foi por sinuosa via até chegar a singular ladeira.
" Sempre o sol é inclemente.Melhor mudar".
Escreveu:
Sob o esplendor do sol foi por sinuosa via até chegar a singular ladeira.
- Por que não escreve: Sob o sol inclemente foi pelo caminho que serpenteava . até chegar a uma ladeira íngreme? disse o mestre de escrita.

(foto: Google imagens) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Comentário


A escritora Helena Britto Pereira comenta meu livro INTERSECÇÕES:

Seu livro é lindíssimo.A mim me soou como um grande poema de delicadeza, de sensibilidade aquosa,de força intensa disfarçada.
Continuando a leitura senti o desamparo que nos aflige a todos,os medos de dentro que desabrocham do nada,os desencontros que nos tornam tão paralelos.
Tudo dito com uma extrema beleza.Como num longo canto, os sons se elevam e se esvaem. E no fim o encontro que na verdade é viagem.Cada um irá para seu lado, dividindo esse lirismo que os uniu,dividindo esse peso que os separou.Parabéns.

  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Remos


   Um velho barqueiro remando.Atravessar o rio muitas vezes ao dia,de uma margem a outra,é sua tarefa.Recebe os passageiros cordialmente,recebe o pagamento com gentileza.São infinitamente tristes seus olhos.Suave,a voz.Carrega homens,mulheres,velhos,crian-ças.Jamais reclama.Jamais fixa o horizonte.Ou as águas.Preso ao barco,nunca abandona seu fardo.Nada o impede de fazê-lo.