domingo, 25 de junho de 2017

Cultura


Eles produzem corrupção.
Nós produzimos cultura.
Eles propagam a ganância.
Nós propagamos a reflexão.
Eles incentivam a ignorância.
Nós cultivamos o pensamento.
Eles disseminam a estupidez.
Nós regamos os sentimentos.
Eles cultuam a velhacaria.
Nós cultuamos o talento.
Eles abominam a inteligência.
Nós semeamos a genialidade.
Eles odeiam a cultura.
Nós amamos a criatividade.
Que a incapacidade deles de compreender o humano,a ética e o sublime
 seja o nosso incentivo para valorizar o humano, a sabedoria e reconhecer o sagrado.

sábado, 24 de junho de 2017

Sóis



Encadeamento de sóis
no fulgor do Vivo,
comunhão de claridade
sem aparatos que não luz,
fulgor de Ser
em plenitude sem miasma,
imensidão de mar ardente
no Sumo do Infinito.

(foto: Google)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poema



No centro da Via,nenhum planeta ou sol.
No caudaloso,movimento,sêmen da rota.
O fecundo do vácuo no atrito do nada.
Fluxo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Vestígio


Ascende
o dia
entre escombros.
Perdida
está a tardia
aurora.
resta,
no solo,
o vestígio
duma sombra
a marcar as horas.
A vida é além.

(foto: Meteora, Grécia- Google imagens)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ancestral


O Ancião dos Dias
 emerge
do caos à ordem,
trazendo consigo
a força que reitera
a sanidade das coisas,
a insanidade dos homens,
o fiat lux do mundo.
Compor o Cosmos
é um ato de osmose.

( Arte de William Blake)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Metamorfose



Estou me mudando
para uma outra casa,
bem maior e mais ampla,
com jardim e uma fonte.

Ainda estou trabalhando nela,
conferindo-lhe
mais consistência no soalho
e mais flexibilidade
nas paredes.

É uma casa suspensa
com requintes de simplicidade
Seu único luxo é a janela
onde vejo tudo
o que há para ser visto.

Nela até o meu sonho
é desperto e desabrocha
para um mundo mais vivo,
destrancando vidros e porta
e gerindo a infinitude.

Estou me mudando
para uma outra casa
assentada sobre
o além das formas.

Hoje revisito
o desconhecido
 que já me conhecia de outrora.

(imagem Google)

sábado, 17 de junho de 2017

Cruz e Sousa

 CAVEIRA

I
Olhos que foram olhos,dois buracos
Agora,fundos, no ondular da poeira...
Nem negros,nem azuis e nem opacos.
Caveira!

II
Nariz de linhas,correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais,falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve,original,ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

(imagem: google)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Conhecimento


Conheci a noite,seus pesadelos,
o corte na carne,
o suor do sangue
enquanto definhava
nas veias do horror.

Conheci a as astúcias do pesadelo,
seu rosto sem alma,
sua forma esvaída
nos interstícios do medo.

Conheci o medo,o espanto,
o pavor avolumando-se
nos moldes das vísceras,
o grito soldando
crueldade e pânico.

Conheci o amanhecer
e os vestígios do sol
anunciando
que aves inventam as manhãs.

(foto: Google)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Poema




Na foz da Fronteira, o deslimite.
O maior no incluso do mínimo.
No reverso das coisas, o translúcido.
O que reverbera,anuncia.
Adiante, mares,desertos, florestas, não o excesso.
Aqui o adiante.
O limite.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Túmulo de Charles Baudelaire- Mallarmé




O templo tumular divulga em sepulcral
Boca de esgoto gotas de lodo e rubis
Abominavelmente algum ídolo Anubis
Todo o focinho a arder como um uivo brutal

Ou que o gás novo aviva a mecha trivial
Submissa a opróbrios sabe-se uma meretriz
Ele acende selvagem um imortal púbis
Cujo voo entre lâmpadas é sensual

Que louros a secar em vilas sem poente
Votivos vão benzer como ela põe-se assente
Inútil  frente ao mármore de Baudelaire

No véu que vibra e a ela ausente a envolver
Aquela a Sombra dele um vírus protetor
Por sempre a respirarmos até no estertor

terça-feira, 13 de junho de 2017

Koan



Num poço que não foi cavado,
a água está ondulando de uma fonte que não flui;
lá,alguém sem sombra ou forma
está retirando água.

(foto: Google imagens) 

Poema de San Juan de la Cruz

 (trecho:)

Yo no supe dónde estaba,
pero, cuando allí me vi,
sin saber dónde me estaba,
grandes cosas entendí;
no diré lo que sentí,
que me quedé no sabiendo,
toda ciencia transcendiendo.

sábado, 10 de junho de 2017

Realidade


O balde,
 sua corporeidade metálica,
 circunferência.
Então a água,
sua fluidez líquida,densidade,
volume.
Quebrar
o fundo do balde:
 Visão

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Conto



FLOR

A flor luminosa e giratória do ventilador  assombra a penumbra do quarto. É um girassol ardendo nas trevas. Esvoaçam cortinas e toalha da mesa onde coloco meus livros. Ouve-se apenas o zumbido das pás em seu incessante movimento.
\Estou á espera. Só.
Estendido e nu sobre a cama.
há nenhuma pressa.
Mansamente ela chega,sem quebrar o silêncio.Com suavidade se aproxima.Senta-se ao meu lado.
Seu toque acaricia todo o meu corpo.
Permaneço imóvel,recebendo suas mãos que ause me fazem penetrar no oceano das sonhos.
Sem fazer ruído,minhas lágrimas escorrem pelo rosto.
A madrugada se esgota nesta cumplicidade de silêncios.
Pela manhã ela calça os sapatos,apanha a bolsa e parte.
Continuo inerte sobre a cama,cerro as pálpebras.
Talvez amanhã ela retorne.

(foto|: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

SENSO

Ás vezes,tem,o dia,
um fulgor
de laranja,a casca,
de cardo, o agudo,
apimentar
das essências do insípido,
aroma
nas asperezas do cítrico,
o sutil dos sentidos
na crucificação das formas,
superação do hígido
nas fronteiras do único.

O Agora não tem pressupostos. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Fado


Há quem sofra de insônia
e reze na madrugada.

Há quem sinta um aperto no peito
ao findar o dia.

Há quem desça a escada
na ponta dos pés.

Há quem beba apenas água da chuva
ao meio-dia.

Há quem abarrote a casa
com toalhinhas de crochê.

Há quem ingira a comida fria
sobre a mesa nua.

De qualquer modo,
às vezes é preciso
riscar o fósforo.

(imagem: Google)



Poema - IMAGENS

Nos escombros do instante,
o agora vomita
uma beleza sem diagnóstico.
Parir de flores
em fulgor de cólicas.
Estrebuchar de amor
no ósculo das bestas.
Vinho é o dia
fermentado
nas catacumbas do claro. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema

  

 Nos reparos do nada, ainda o sol.
   Cru sobre os frutos.
   Frutos, quem os come? quem os molda?
   Frutos e vermes em alinho sobre a terra num cardume de raízes.
   Frutos, a vastidão do que povoa o mundo.
   Mundo, movimento.



sábado, 3 de junho de 2017

TEATRO




( Um trecho da minha peça O TIRO):

Homem 1- Muito bem.Assim sendo,em que ponto você quer chegar ?
Homem 2- No desaparecimento dele.Este é o nó,o xis da questão.
Homem 1- Se há três envolvidos – e não podemos esquecer disso- ,e se em dois deles não está o problema,a falha,provavelmente deve estar no terceiro.É um raciocínio lógico.Isso significa que ele deve ter mudado de ideia. Decidiu não fugir.
Homem 2- Sem nos avisar ?
Homem 1- Ora,ele sempre teve um caráter,no mínimo,duvidoso,
você tem de reconhecer,apesar  de toda a sua...bondade.
Homem 2- Como de hábito,começa a acusá-lo.Mesmo quando aparentemente se prontifica a ajudar,a ser tão compreensivo,
a...
Homem 1- ...perdoar ?...
Homem 2- Se consegue admitir...
Homem 1- Ah, finalmente estou começando a ver as garrinhas de fora!
Homem 2- Cada um vê o que quer.
Homem 1- Mas o pior cego é o que não quer ver.
Homem 2- E o que você está vendo ?
Homem 1- Eis a questão.
Homem 2- Diga.

Homem 1- Uma acusação.

(imagem: Google) j

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Morte-Vida



São muitas as máscaras da morte,
inúmeros os estratagemas,
inesgotáveis os recursos.

Infinitas são as faces da vida,
seus organismos, mananciais
de enigmas, irromper
de estigmas.Vácuo que preenche
a si mesmo nas categorias do fluido.

Luz complexa
acometida das sofisticações do simples.

(foto:  Cleber Pacheco)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Força

  Das paredes que se desfazem,
das muralhas que se consomem,
das montanhas que são alcançadas
mero vapor exala
e é, ainda que volátil
 da consistência do aço.

desenho de Cleber Pacheco)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Carta a Rimbaud


                                             
                                                                                                  Adorado irmão,

  Escrevo para você que ainda se encontra aí nesse local perdido do mundo apenas para confirmar:sim,atendi o seu pedido.Pode ficar tranquilo,pode descansar sua alma fatigada e seguir os negócios tão lucrativos e fascinantes,alcançando o nobre propósito de enriquecer.Deus o ajude a realizar tamanha felicidade e,quando consegui-la,retornar à sua casa,ao seu amado lar.
   Por certo está afoito para fazê-lo e finalemnte rever a sua querida família.
   Aguardamos ansiosamente.
   Não vemos a hora de reencontrá-lo.Cada vez mais preciosa torna-se a sua volta. O Filho Pródigo não seria tão bem-vindo.
   Novamente tranquilizo-o quanto à sua carta anterior.Ela não existe mais.Foi rasgada,picotada,incinerada.Nada dela restou.Nem mesmo as cinzas.Tive o cuidado e a consideração de soprá-las ao vento.Assim ninguém poderá saber.Ninguém.O poeta já não existe mais.E nunca retornará.Nunca.
   respire aliviado.Jamais alguém poderá saber o motivo pelo qual ele desapareceu para sempre,embrenhando-se em inexploradas selvas e desertos d´ África...

                                                                                                Com todo afeto,
                                                                                                da sua irmã que o venera,
     
                                                                                                 Isabelle.

terça-feira, 30 de maio de 2017

AUTOR CONVIDADO

     Bruno Vianna de Andrade é historiador com pós-graduação em História e Cultura da América Latina. Venceu o Concurso Machado de Assis e foi finalista do I Concurso Crônicas Cariocas. Venceu o VIII Concurso La Vida es Poesía em 2016. Ganhou várias Menções Honrosas.

LUA

Que lua é essa?
Incólume,hermética
Tão nua
Tão lua
Que o céu me engole
E o que sou agora?

TATUAGEM

Na pele
Tatuagem
Epiderme
Selvagem
Em tinta
Flor de Liz
E um nome
Beatriz
Desabrocha num braço
Se perde num abraço
E perpetua em cicatriz





LUA CHEIA

Quando há noite de lua cheia
A água salgada invade a areia
Destilando todo seu sal
Em terras que foram de Portugal
A luz do cais ilumina
O que há de mais cético abomina
Em areias de um castelo
Um universo paralelo
Além do sol e da lua
Além da minha e da tua sanidade
Além de uma ou outra gravidade
Que ,mantém a lua lá,
intacta,flutuante
Olhando serena
o mar ofegante
Que a cada instante
Se perde em ondas e contas
Eis que se encontra em lendas
E recomeça a maratona



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ensaio

 Recebi convite para escrever ensaio a respeito do novo livro de poesia do poeta da Índia Daipayan Nair.
 Já estou fazendo os apontamentos e as leituras.
 Por ora posso adiantar que se trata de um trabalho poético realmente de qualidade.
 Um grande prazer poder realizar esse projeto.
   

Lar



Há quem busque lar,
abrigo ou caverna.

Contento-me em andar
em desvendamentos
que me espantam.

Meu modo
de estar em casa.

(foto: Cleber Pacheco)

domingo, 28 de maio de 2017

Limiar



Nunca há retorno
após haver entrado,
sempre os passos
conduzem adiante,
desconhecer o amor
talvez seja o recurso
que adiamos ao nos depararmos
com aparente idoneidade.
Íntegros,dilacerados,
respiramos sempre aos goles
sem intervenção que acuda
os experimentos da morte.
Encontremos,pois,
mais outra funda verdade
e de imediato façamos a dispersão
dos encantamentos do Sol.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 27 de maio de 2017

Resenha


  Os antigos Bestiários da Idade Média descreviam os animais de modo fantasioso, conforme as superstições e crenças da época, tendo um caráter muito mais imaginativo do que realista. O pensamento científico ainda não havia surgido e a mente era dominada pela religiosidade.
   Posteriormente as Fábulas continham, breves histórias  atemporais e os animais representavam defeitos ou qualidades humanas,sempre deixando uma lição moral.
  Em O Livro da Selva, Kipling elaborou relatos do reino animal,mas tendo como foco o ser humano.
   O escritor uruguaio Horacio Quiroga colocou os animais como centro de  algumas de suas narrativas. O mundo humano  vem em segundo plano,interferindo no mundo natural.
   Em Anaconda o autor aborda os ofídios, dotando-os de personalidade.  O conflito surge quando as cobras acabam descobrir um instituto que as utilizará para obter soro  antiofídico.. Revoltadas e com temor, elas decidem  reagir., surgindo um conflito entre a anaconda, a maior das cobras sul- americanas, que pode atingir até dez metros,mas não é venenosa, com  a cobra mais venenosa ,trazida da  Índia.
   Temos aqui um embate entre forças do mundo natural e,também, do mundo humano.. O relato é muito interessante e,por ser breve, não desperdiça uma só palavra.
   Com isso Quiroga consegue criar um universo próprio, alargando as possibilidades dos gêneros literários. Uma experiência interessante para o leitor.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Segredos

   


A arte de abrir portas
nem para todos serve:
corte,cálculo,sina
emaranhados,desvencilham-se,
estendem-se diate
dos olhos do assombro.

Tantas vezes a morte
nos cumprimenta
que duvidamos de sua existência.

Uma vez abertas,
nunca mais poderemos fingir
que somos os mesmos.

(imagem: google)


Antologia Poética



Fui selecionado para participar da Antologia poética Além da Terra Além do Céu da editora Chiado de Portugal.
Trata-se de uma publicação em três volumes representativa da poesia brasileira contemporânea.
Os livros já foram publicados e lançados no Brasil e em Portugal.  Estarão na Feira do Livro de Lisboa e na Bienal do \livro de São paulo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mistério



MISTÉRIO

Adentrar
o mistério
em sua icônica ossatura,
expelir a forma
do que não tem forma,
integrar o assombro
à circunferência do acolhido,
repensar o proscrito
nas imediações do âmago:
Os segredos do vivo
nos canais do perceptivo.
Mistério,
o indomado
na geometria do infinito.


(imagem: Bryan de Flores) 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Futuro?



O Brasil está em crise.Á beira do caos. O motivo? Ganância,corrupção,falta de ética.
Daí a pergunta: qual será o futuro do país?
Infelizmente não há boas perspectivas à vista.
É assustador ver a total falta de remorso,de sentimento de culpa e de vergonha dos governantes.Rouba, se vendem,mentem e dizem que são todos inocentes e vítimas. Comportamento de sociopatas.
As pessoas estão estarrecidas,revoltadas,assustadas.Mas a violência não trará soluções.Só agravará os problemas.
É o momento de a população ficar unida e manter ideias em comum.
Por certa se trata de uma crise a longo prazo. Não haverá soluções mágicas.
Bom senso. Constituição. Eleições diretas. Eis o caminho.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Resenha



   Provavelmente o livro mais famoso de Cortázar seja  O Jogo da Amarelinha (Rayuela) por sua inovação e ousadia formal. Há quem aprecie Bestiário, do qual realmente não gosto,com exceção de .
um ou dois contos. O texto que mais gosto dele é uma pequena história intitulada El Perseguidor.
   Nele o autor conta a história de um saxofonista que toca jazz. Em seus momentos mais inspirados de improvisação ele persegue o inexprimível, o imponderável, Por meio da criatividade, tenta alcançar algo indefinível, que possa atingir e alcançar, mesmo que por um breve instante, aquilo que não podemos conceituar,ou ao menos aguçar nossa percepção da vida e do mundo ao nosso redor.
   O trecho a seguir é extremamento significativo:
 
   En realidad las cosas verdaderamente difíceles son otras tan distintas,todo que la gente cree poder hacer a cada momento.Mirar,por ejemplo,o comprender a un perro o a un gato. Ésas son las dificultades,las grandes dificultades.

   Por sua simplicidade narrativa e pela capacidade de provocar a reflexão e inquietar,este é,sem dúvida, um dos melhores momentos do escritor,mais conhecido pelo aspecto surreal ou de realismo mágico dos seus textos.
,,
   

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Mago


Onde vive o discernimento
em nitidez de sabedoria e espanto
nasce ,não o cálculo,o vibrátil
que se desprende de dogmas e arestas,
criando,vendo,expelindo
a intensidade dos máximos e dos mínimos,
revigorando, repondo
espontâneo e genuíno,
capaz de esculpir a si mesmo,
ao mesmo tempo autor e obra.

(imagem: google)

domingo, 21 de maio de 2017

Compaixão



Surgiu,o homem,implorando ajuda.Dor, a única expressão nele existente.Ferido estava.
Acolhida imediata,sobre a cama coloquei-o.Desacordado ficou.
Logo veio o segundo homem para vê-lo, avisando que  por certo um outro apareceria,quão perigoso era,como devia ser afastado.
O terceiro de fato veio.E avisou-me: o perigo real vinha do anterior,não se poderia confiar nele.
O primeiro,adormecido,corria risco de vida. Indecisa, achei melhor evitar o acesso de ambos. Fechei as portas.
Na casa, apenas eu e o ferido que eu  socorrera.
Esperei pacientemente pela sua recuperação.Dei-lhe alimento,banho,bálsamo.
Aos poucos foi recuperando a própria consciência.
Só assim pude matá-lo,

(Imagem: Google)


sábado, 20 de maio de 2017

Livraria

 
A livraria era um universo e a laranja que o meu avô tinha nas mãos, o seu sol.
Entrei,como de costume, para passar a tarde toda ali.
Podia escolher o que quisesse: aventuras, mistérios,quadrinhos, mundos mágicos.
Sentei-me no canto após escolher o livro da vez e mergulhei.
Todo o restante deixou de existir.
Sim,ele permitia. Eu ficava ali quanto tempo quisesse,podia vasculhar as possibilidades oferecidas.
Fluíram os anos e continuei frequentando o lugar. A velhice das estantes e dos volumes trazendo a garantia de que o encanto perduraria para sempre.
A dor e a morte prosseguem lá fora,nas ruas, mas ali os alfarrábios, como que por milagre, ainda respiram.

(foto: Google)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Arte de Amar


Nem o amante
ou o amado,
o amável.

Nem o silente
ou o sino,
o dobrado.

Nem o redundante
ou a ausência,
o presente.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Anatomia




É rasa a retina
para conter corpos,
é funda a mina
que engendra mortos.

É rara a retina
isenta de miséria,
é rica a ruína
se fez memória.

(imagem: Google)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Poema



Tanque d'água em escuro,sequer lua.
O que ele reflete?
O espelho do cego recorda
onde o infinito começa.
No canto,escondida,sombra sem espreita.
Além,talvez, o coro dos mortos.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Leitora


Na penumbra evidencia-se o branco da página.
Nele as palavras saltam,mergulham,fundam,retinem.
Ela lê, vasculha mundos,significados,foge e se encontra.
Nela o livro ressoa em coração e cérebro,nutre indagações,espantos.
Fusão e encontro no imaginário das gentes.
Livro-enlace na amplidão que se redescobre em mínimos múltiplos comuns.
Viagem estática, êxtase.

(imagem: Google)

sábado, 13 de maio de 2017

Voltar

   Deitada sobre a relva,ela espera.
   A manhã se dissolve  e ele não surge.
   De que adianta esperar?
   Ela sabe que é inútil continuar. Sabe que deve voltar para casa.
   Trata-se de um caso de rejeição ou abandono,bem sabe,caso contrário ele daria importância ao compromisso.
   Traição?  Desprezo?
    Ajeita a sombrinha, alisa o vestido,contempla a relva. Melhor desistir. Daqui a pouco voltará para onde mora sem olhar para trás.
   Mais uma hora se passa e ninguém.
   Decide retornar antes que sintam sua falta e tenha problemas. Vai abandoná-lo e,quando ele chegar, não a encontrará.Ficará desorientado,confuso,furioso.Estará vingada.
   Sim,daqui a pouco irá levantar e partir.
    Só mais um pouco.Pode esperar. Afinal a tarde ainda está em seu início.Afinal a tarde está ainda na metade.Afinal a noite ainda não chegou.
    Fica.
   

(imagem: pintura de Nicolaevich Kramskoy)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Febre


A febre de existir,
a febre de consumir-se,
a insânia de viver.
Faltam músculos,
secam raízes,
porta a fechar-se.

O mundo à espreita
do que não acontece.
O humano a render-se
às avarezas do instante.
Persistir
(desistir)
é esquivar-se.

Romper
os sete selos
e ver
 refinamento e  crueza
de encontrar-se.

(foto: Cleber Pacheco)




quarta-feira, 10 de maio de 2017

In-verso



Tudo é avesso
de uma outra coisa,
tudo é sombra
sem ruído
e fere a visão.
Tudo é praga
e desatino
e corrói
a carne
além da superfície.
Tudo é ânsia
e vestidão
como se em velório
estivesse.
Tudo é ainda
e o deter-se
é só um jeito
de despedir-se.
Tudo é fundo
e aluvião,
cratera remoída
no vitríolo
do infinito.
Tudo é disparidade
e exclusão
no anteparo
das vísceras
do instante.
Tudo é forma
e rouquidão
na quebra
do celibato de existir.

(foto: Google imagens)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

RESENHA


    Após haver lido romances distópicos, escolhi A Mão Esquerda Da Escuridão de Ursula K. Le Guin, pois a autora cria um mundo muito próprio,com suas sociedades. Desta vez a história ocorre num outro planeta chamado Gethem ou Inverno, pois lá o frio é permanente.
    O jovem Genly Ai é o Enviado da Terra que chega com uma nova proposta: fazer com que Gethem se integre a uma comunidade universal da qual diversos planetas fazem parte.
   Envolto pelo descrédito, Genly Ai tem de enfrentar uma forte oposição,traições,fugas,dificuldades. Mas o ponto central é o seu relacionamento com Estraven, considerado traidor e banido pelo seu próprio povo.
     Genly Ai precisa vencer a própria desconfiança e tem de aprender a conhecer Estraven para vencer os seus próprios preconceitos e incompreensão diante de uma realidade diferente, de um sistema desconhecido, de um povo com regras muito diversas das suas. A jornada que ele realiza com Estraven em meio ao mundo gelado é o ponto central da narrativa, trazendo descrições impressionantes, discussões filosóficas e a respeito das diferenças entre gêneros, amizade e amor.
    É um livro de ficção científica escrito de um modo único,que vai muito além dos estereótipos que caracterizam esta vertente literária. Não há batalhas espaciais,aventuras apenas pelo sabor da aventura. Os fatos possuem um significado existencial profundo. Pelo que me consta, a autora foi influenciada pelo Taoísmo, tendo,inclusive, traduzido o clássico livro chinês para a língua inglesa.
   Trata-se de uma obra em que é preciso levar em conta ainda questões antropológicas, colocando-nos uma questão fundamental no mundo de hoje: a habilidade de mover-nos de uma visão de mundo para outra. Há uma ideia implícita no livro: como olhamos para as coisas é crucial e determinante. Disso depende a nossa capacidade de compreensão.
    A Mão Esquerda da Escuridão nunca perderá  a sua atualidade. Trata-se de obra atemporal a nos ajudar a refletir e a conhecer o OUTRO.
    Se ainda não leu,leia o quanto antes.

   
 

sábado, 6 de maio de 2017

Upasika



    Sozinha na sala, jogando paciência, a Velha Senhora, também conhecida como H.P.B. , percebeu um leve ruído à sua volta e ainda teve tempo de ver uma carta se precipitando do teto.
   Uma mensagem do Mahatma,ponderou.
    Abriu-a.
    Leu-a cuidadosamente.
    Suspirou.
    O Mestre avisava que ela seria traída e difamada e teria uma vida triste e difícil. Poderia desistir de sua missão ou continuar,se quisesse. Era livre para escolher.
    Abandonar tudo, voltar para a Rússia? Seguir em frente?
    Não precisou pensar duas vezes.Suportaria todas as consequências.
    Lá no Tibet, ciente de todos os acontecimentos, o Mestre suspirou em enlevo e compaixão.

* Upasika: discípula

(Foto: Google imagens)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Os Anciãos



   Em primeira mão divulgo aqui o meu novo romance :Os ANCIÃOS.  Como a trilogia  O MESTRE DE ELLORA, trata-se de uma incursão no gênero fantasia. Só que desta vez se tyrata de uma história completa num só volume de 376 páginas.
   No antigo povoado de Sadira, que faz parte de um mundo em outra dimensão, um grupo de jovens repentinamente descobre que está em perigo. Antigos segredos começam à vir à tona e mudam completamente a realidade de todos.
   Com doses de suspense, misticismo e muitas revelações, a história prende a atenção desde o início e segue com ação ininterrupta, desvendando,passo a passo, mistérios que estavam ocultos e estão relacionados com outros universos.
    Anteriormente divulguei alguns trechos aqui mesmo no translittera.
    O livro está disponível no site Clube de Autores.

http://www.clubedeautores.com.br/book/233856--Os_Anciaos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sede


   Insaciável desde sempre,
   Bebê,sugava o seio materno com voracidade até esgotá-lo.
   Criança,bebia água o tempo todo, secava as torneiras sem piedade.
   Jovem, esvaziava todas as garrafas que encontrava.
   Adulto, espremia dezenas de frutas para extrair o sumo.
   Velho, foi para o deserto. Tornou-se oásis.

(foto; google)
 

terça-feira, 2 de maio de 2017

A Chave


   Havia sete portas para abrir.Nenhuma era mais importante do que a outra,mas todas deveriam ser abertas. Cada uma a seu tempo. Cada uma com sua chave. Cada chave tendo de ser girada sete vezes.
   Se conseguiria abrir todas,ignorava. Queria entrar,mas não poderia ser de qualquer modo. Havia uma ciência e uma arte para abri-las.
   Primeiro,porém,teria de encontrar cada uma das chaves.
    A primeira estava debaixo de uma pedra. A segunda, debaixo de uma árvore.A terceira,sob as asas de um pássaro. e assim foi ele realizando a sua tarefa.
     Agora ele busca a sétima chave.
     Não há ninguém para ajudá-lo,nenhum indício.
      Ele torna a conversar com o mundo das rochas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Poema



Para além de tudo,silêncio e verve.
Reposição de circunferências, o concêntrico, a repetição do concêntrico,ênfase.
Para além do repetido, a fluência do único.
Vertigem.

sábado, 29 de abril de 2017

Límpido



   Concentrou-se,o monge, na limpidez da água, uma água líquida,transparente,muito diversa da transparência de vidro de um bloco de gelo, da opacidade das pedras se espalhando pelo solo, da leveza do voo das aves, da delicadeza única das flores. Desta vez,quis ele, encontrar o insano.
   Não foi possível definir a consistência daquela água, a temperatura, não se importou com as folhas caindo sobre,com o escorregadio do fundo,com as brincadeiras do sol e da sombra no aquoso. Dedicou-se única e exclusivamente à transparência.
   Para compreendê-la, precisou evitar os riscos das elucubrações filosóficas e os destemperos da insanidade. Ver o transparente poderia facilmente conduzi-lo a um estado irreversível de loucura ou matá-lo. Muitas foram as armadilhas para chegar a um estado perfeito de contemplação. Ninguém diria que algo tão simples pudesse conter tantas possibilidades falaciosas,tantos riscos.
    Era um grande propósito, havia avaliado. Só não imaginara que gastaria nele  toda a sua vida.
 
 
 
 
 

   

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Poema



Acolher um corpo (insetos,mamíferos) exige gesto.
O anatômico requer condição.
Morrer à míngua,à deriva é só uma face do possível.
Nascer,evacuar,maior esforço.
Um corpo sobre a terra,o percorrer,a sobrevivência do desgaste.
Acolher um corpo ( mamíferos,insetos) exige tato.
É incondicional o amorfo.